Antes que as minhas mãos percam a dádiva da escrita, quero segredar-te que o verde que descia a colina afagando a urze e o rosmaninho em suaves fios de veludo anil está hoje mais ténue. Vislumbro agora que a água que brotava da fonte em cantatas celestiais era apenas o reflexo do oceano de sombras que impedia as flores do monte de seguir os trilhos das tuas pegadas no jardim da minha dor. A fonte secou e a chuva cai, ofegante, alimentando em mim a miragem azul do teu olhar. E eu vagueio em círculos fechados, espalhando a seiva dos sonhos passados, à espera que a chuva cumpra o milagre da germinação.
Maria Santos, O Tempo Cansado




