segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Um segredo




Antes que as minhas mãos percam a dádiva da escrita, quero segredar-te que o verde que descia a colina afagando a urze e o rosmaninho em suaves fios de veludo anil está hoje mais ténue. Vislumbro agora que a água que brotava da fonte em cantatas celestiais era apenas o reflexo do oceano de sombras que impedia as flores do monte de seguir os trilhos das tuas pegadas no jardim da minha dor. A fonte secou e a chuva cai, ofegante, alimentando em mim a miragem azul do teu olhar. E eu vagueio em círculos fechados, espalhando a seiva dos sonhos passados, à espera que a chuva cumpra o milagre da germinação.  

Maria Santos, O Tempo Cansado

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Voo azul



Caminho sem destino num vazio de emoções,
em tumultos de palavras nunca ditas,
de esperanças vãs descritas
numa página em branco!

São horas, são dias,
longos meses de amargura,
recordando, com ternura,
a tua voz soando ao longe,
num eco distante,
mas viva em mim.
Anos de falso alento,
de ironia e fingimento,
de revolta.

Mas pior do que a derrota
é falsear a esperança
de um dia acordar envolta
num bailado de gaivota
e murmurar-te ao ouvido
que jamais te vou deixar

meu mar.


                      Maria Santos

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Tempo



Arrastam-se as correntes soltas
dos fantasmas inertes
na noite que assoma as ruas frias da cidade
deserta, parada, longínqua.

Em desfiladeiros de sons suspensos
ecoam lamentos
que emergem das pedras cinzentas
pisadas por odores cálidos,
exalados por  presenças ténues, quase imperceptíveis,
que avassalam o espaço aberto do domínio dos sentidos.

Acordam-se as lembranças ocultas
nos ventres húmidos outrora acesos,
arrebatando desejos entorpecidos na dormência do tempo.

E o tempo recua, em círculos extensos, veloz,
E atravessa os limites do presente, agora nítido…

É o momento.


Maria Santos

Ecos da Tarde



                                              Aos pequenos grandes poetas da Oficina de Escrita


Soa o toque sereno da tarde que espreita vazia
de sons, de odores, de gente.
Nos corredores ressoam passos
longínquos, ocos, persistentes,
adivinhando eternas horas indolentes
de silêncio penetrante.
Subitamente, em toadas soltas,
surgem sombras feiticeiras
expandindo a chama ardente
que ilumina o pensamento
errante e incandescente
dos poetas resistentes!
E no suave murmúrio de doces trinados
vagueiam em sinais inebriados
as palavras nunca ditas
e emoções jamais descritas
em Ecos da Tarde.


                      Maria Santos

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Voo delirante


Fotografia de Inês Alves Teixeira Fernandes



Deleito-me ao ver-te bailar,
meu amigo,
em celestiais compassos de ilusão
e sinto-me feliz por ti,
mas desfaleço
ao saber que me és distante.
Invejo o teu voo delirante
e procuro em ti a minha paz
quando ouço o teu canto lá no alto
sonoro, vibrante e tento alcançar-te
num pensamento divino.
Mas quando preparo o salto
para te tocar finalmente,
sinto as amarras que prendem
a minha condição de gente.

Maria Santos


É tarde!

Fotografia de Inês Alves Teixeira Fernandes


Regresso do meu estado de fadiga à tua
paz como se o tempo urgente me chamasse.
O tempo tem horas cansadas
que turvam os rios e deixam
suspensos pedaços de luz
na penumbra esbatida da calçada.

Bato na porta amarela que deixei
entreaberta e o peso do silêncio ecoa nas fendas
dos passos vazios.
É tarde!

Maria Santos


A todos os jovens vítimas da falta de acompanhamento na vida




Acordei sonhando que não havia escola.
Suspirei ao pôr o pé no tapete,
Pareceu-me dormente!
Gritei bem alto, escondendo a sacola:
-Mãe, hoje fico, estou doente.
Ouvi a resposta, já na escadaria,
Tapei os ouvidos àquela sinfonia,
Mas as sílabas sonantes ecoaram estridentes:
-Se não te levantas, parto-te os dentes!

Ai, quem me dera o fim-de-semana!
Brincar com amigas ou ficar na cama.
Mas tive de ir às aulas,
Sem outro remédio.
Fui fazer um frete,
Enchi-me de tédio!
Disse algumas graças,
Fui repreendida;
Não levei os livros,
Senti-me perdida;
Marcaram-me falta,
Mandei uma boca,
Olharam-me todos
Como se eu fosse louca!

Voltei para casa, ao anoitecer,
Fiz uma sanduíche, sentei-me a comer,
Abri a mochila, voltei a fechá-la,
Sentei-me na sala, vi televisão.
O tempo correu, descompassado,
Senti-me sozinha e desejei então
Que alguém me ralhasse
por não ter estudado!

Maria Santos


sábado, 13 de agosto de 2011

As janelas do passado longínquo




Embala-me o toque acetinado
do canto do rouxinol,
longínquo, quase ausente,
no rosto marejado e quente
daquela tarde tórrida de Verão.

Fecho os olhos num instante eterno
e vislumbro a porta do tempo
escancarada,
solícita,
expectante.

Deixo-me deslizar
pelas fendas das arestas
das janelas do passado longínquo
e vivo momentos antigos
sepultados na memória do tempo.



Maria Santos

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Filho da Guerra



Deambulas na rua sombria e densa
entre sombras mascaradas e perfis imaginários,
desabafas o teu ódio apedrejando o silêncio
de estranhos odores,
esvais-te em sonhos perdidos
e amaldiçoas a angústia da tua condição
de farrapo abandonado nas ruínas do tempo.

Cerca-te o orgulho errante
dos predadores do presente
que te amputam a alma cansada
na penumbra da calçada imunda e gélida.
Choras as tuas origens
sepultadas na imensidão da guerra!

A noite desce soturna e muda
e o eco das balas longínquas já nada te diz.
Vagueias entorpecido na inquietação.

E na pálida imensidão de sentidos,
pisas excrementos com sapatos de ilusão.

Maria Santos


Hino à resistência


Quero saudar-te, resistente,
cuja lucidez semeará sinais, na história
da dignidade, da coerência, da memória,
imunes aos destruidores sinais do tempo presente.

Quero louvar a vitória
da integridade, da retidão, da sensatez,
de ti, que enfrentaste o medo com a persistência,
passando fronteiras, tormentas, barreiras,
e venceste a maldade com a sapiência.

Quero celebrar o triunfo da inteligência
que te consagrou detentor de horizontes mais altos
e te ajudou a rasgar os trilhos dos ditos incautos
na luta constante contra a indecência.

Quero agora inaugurar uma nova era
assente nos ecos do presente,
que cale, para sempre, os tementes da verdade
e nos conceda, a nós, combatentes, o estatuto de eternos resistentes.

Maria Santos

As frias pedras da calçada














Não me canso de te olhar,
de te abraçar e sentir
o teu cheiro de criança
que me embala e te acompanha
no processo de mudança
de menina para mulher.

Ouço o sussurrar dos fios
do teu cabelo dourado
na imagem da cómoda do teu quarto
onde permanece intacto
o brilho do teu sorriso quente
na esquina do tempo
que atravessa a memória
dos meus sonhos errantes,
repletos de ti.

Sinto o toque aveludado da tua voz
longínqua, nas noites longas e densas,
que testemunham a dormência
dos meus passos
ao ecoarem nas frias pedras da calçada
da cidade clara onde ficaste,
vazios de ti.


Maria Santos