Se eu pudesse destruía o egoísmo, abatia a inércia, demolia a perversão, matava a mediocridade, assassinava a mentira e decretava a urgência do amor.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Viagem
A tua presença
pernoitou serena,
expectante, sonolenta,
amena, oculta na sombra
do meu destino
sem que eu pudesse adivinhar
que as portas blindadas
dos meus sentidos
eram apenas frágeis muros
de areia erguidos
em tempo de calmaria…
O outono espreitou,
vazio de ti…
Mas o vento,
velho sábio das coisas do mundo,
atravessou todas as pontes,
elos das nossas essências,
e, num simples pensamento,
destrancou com sete chaves
todas as portas maciças
daquele templo hirto e soturno
senhor de mim.
As tuas palavras tornaram-se,
então, o eco de todas as horas
agora compassadas e límpidas.
Eternos momentos de silêncio
preencheram o espaço
ainda virgem de nós
testemunhando a timidez
da realidade que terminava
o seu percurso virtual.
Agora, meu amor,
as palavras vazias são já longínquas
conchas fechadas em oceanos perdidos.
São agora verdes mundos de esperança
jamais estéreis, raízes da árvore plantada
que há-de permanecer robusta e indiferente
às intempéries futuras.
Maria Santos
domingo, 27 de novembro de 2011
Infinito
Apenas mar, aquela imensidão
os embala no torpor e na angustia das ausências,
pelo desejo e pelo receio
de fuga, de descaminho
do desconforto das imagens fortes e ténues
do que é, sem o ser
das diferenças que os perpassam…
Talvez o sonho e a mágoa das auroras
dos momentos que nunca habitaram.
E o silêncio ecoa nas falésias…
As gaivotas e os milhafres partiram.
E as ondas revoltas prosperam agora.
José Carvalho
O outro lado do mar
A tarde desce deslumbrante sobre o mar
de um azul tórrido, macia e calma, envolvente.
O silêncio ecoa na falésia
que resiste, ficticiamente persistente
ao rolar do Tempo.
Lá longe, a linha do horizonte mantém a firmeza,
mas hoje parece-me próxima,
tão próxima que vislumbro o outro lado do mar,
agora revolto em ondas sonantes e fortes,
apelativas…
Maria Santos
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Da minha janela
Da minha janela vejo o mundo na nitidez
das águas do Mondego, saudosas do cais de outrora
onde agora reina uma espécie de bulício
mascarado pela chegada amena
da madrugada desta urbe
que hoje resplandece
glamorosa.
E o mundo irrompe por esta janela
liberto, fecundo, presente
em ondas sonantes de luz e de cor
transformando cada momento
num tempo
de eternidade.
Detenho-me na ponte que se impõe
no horizonte, majestosamente erguida
por entre as linhas oblíquas
da chuva
que pressinto
sobre o rio farto,
de um cinza anilado,
e deixo que a brisa dance
nos meus cabelos
sedentos de azul,
daquele azul sereno
que me transporta ao cais
do presente
onde quero embarcar até
transpor os muros
do meu desassossego.
Maria Santos
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Um segredo
Antes que as minhas mãos percam a dádiva da escrita, quero segredar-te que o verde que descia a colina afagando a urze e o rosmaninho em suaves fios de veludo anil está hoje mais ténue. Vislumbro agora que a água que brotava da fonte em cantatas celestiais era apenas o reflexo do oceano de sombras que impedia as flores do monte de seguir os trilhos das tuas pegadas no jardim da minha dor. A fonte secou e a chuva cai, ofegante, alimentando em mim a miragem azul do teu olhar. E eu vagueio em círculos fechados, espalhando a seiva dos sonhos passados, à espera que a chuva cumpra o milagre da germinação.
Maria Santos, O Tempo Cansado
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Voo azul
Caminho sem destino num vazio de emoções,
em tumultos de palavras nunca ditas,
de esperanças vãs descritas
numa página em branco!
São horas, são dias,
longos meses de amargura,
recordando, com ternura,
a tua voz soando ao longe,
num eco distante,
mas viva em mim.
Anos de falso alento,
de ironia e fingimento,
de revolta.
Mas pior do que a derrota
é falsear a esperança
de um dia acordar envolta
num bailado de gaivota
e murmurar-te ao ouvido
que jamais te vou deixar
meu mar.
Maria Santos
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Tempo
Arrastam-se as correntes soltas
dos fantasmas inertes
na noite que assoma as ruas frias da cidade
deserta, parada, longínqua.
Em desfiladeiros de sons suspensos
ecoam lamentos
que emergem das pedras cinzentas
pisadas por odores cálidos,
exalados por presenças ténues, quase imperceptíveis,
que avassalam o espaço aberto do domínio dos sentidos.
Acordam-se as lembranças ocultas
nos ventres húmidos outrora acesos,
arrebatando desejos entorpecidos na dormência do tempo.
E o tempo recua, em círculos extensos, veloz,
E atravessa os limites do presente, agora nítido…
É o momento.
Maria Santos
Ecos da Tarde
Aos pequenos grandes poetas da Oficina de Escrita
Soa o toque sereno da tarde que espreita vazia
de sons, de odores, de gente.
Nos corredores ressoam passos
longínquos, ocos, persistentes,
adivinhando eternas horas indolentes
de silêncio penetrante.
Subitamente, em toadas soltas,
surgem sombras feiticeiras
expandindo a chama ardente
que ilumina o pensamento
errante e incandescente
dos poetas resistentes!
E no suave murmúrio de doces trinados
vagueiam em sinais inebriados
as palavras nunca ditas
e emoções jamais descritas
em Ecos da Tarde.
Maria Santos
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Voo delirante
Fotografia de Inês Alves Teixeira Fernandes
Deleito-me ao ver-te bailar,
meu amigo,
em celestiais compassos de ilusão
e sinto-me feliz por ti,
mas desfaleço
ao saber que me és distante.
Invejo o teu voo delirante
e procuro em ti a minha paz
quando ouço o teu canto lá no alto
sonoro, vibrante e tento alcançar-te
num pensamento divino.
Mas quando preparo o salto
para te tocar finalmente,
sinto as amarras que prendem
a minha condição de gente.
Maria Santos
É tarde!
Fotografia de Inês Alves Teixeira Fernandes
Regresso do meu estado de fadiga à tua
Maria Santos
Regresso do meu estado de fadiga à tua
paz como se o tempo urgente me chamasse.
O tempo tem horas cansadas
que turvam os rios e deixam
suspensos pedaços de luz
na penumbra esbatida da calçada.
Bato na porta amarela que deixei
entreaberta e o peso do silêncio ecoa nas fendas
dos passos vazios.
É tarde!
Só
A todos os jovens vítimas da falta de acompanhamento na vida
Acordei sonhando que não havia escola.
Suspirei ao pôr o pé no tapete,
Pareceu-me dormente!
Gritei bem alto, escondendo a sacola:
-Mãe, hoje fico, estou doente.
Ouvi a resposta, já na escadaria,
Tapei os ouvidos àquela sinfonia,
Mas as sílabas sonantes ecoaram estridentes:
-Se não te levantas, parto-te os dentes!
Ai, quem me dera o fim-de-semana!
Brincar com amigas ou ficar na cama.
Mas tive de ir às aulas,
Sem outro remédio.
Fui fazer um frete,
Enchi-me de tédio!
Disse algumas graças,
Fui repreendida;
Não levei os livros,
Senti-me perdida;
Marcaram-me falta,
Mandei uma boca,
Olharam-me todos
Como se eu fosse louca!
Voltei para casa, ao anoitecer,
Fiz uma sanduíche, sentei-me a comer,
Abri a mochila, voltei a fechá-la,
Sentei-me na sala, vi televisão.
O tempo correu, descompassado,
Senti-me sozinha e desejei então
Que alguém me ralhasse
por não ter estudado!
Maria Santos
Maria Santos
sábado, 13 de agosto de 2011
As janelas do passado longínquo
Embala-me o toque acetinado
do canto do rouxinol,
longínquo, quase ausente,
no rosto marejado e quente
daquela tarde tórrida de Verão.
Fecho os olhos num instante eterno
e vislumbro a porta do tempo
escancarada,
solícita,
expectante.
Deixo-me deslizar
pelas fendas das arestas
das janelas do passado longínquo
e vivo momentos antigos
sepultados na memória do tempo.
Maria Santos
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