quinta-feira, 26 de abril de 2012

Os umbrais da madrugada



Ensinaste-me a habitar
o templo do teu olhar
quando teceste o meu corpo
nos fios do teu calor 
transformando em doce canto
o grito da minha dor.

Percorremos lado a lado
muralhas de horas vazias
no tempo apagado,
Soltámos lamentos perdidos
nas noites queixosas
de luas passadas,
sulcámos ventos e fragas  
nos umbrais da madrugada
em leitos de linho e mel,
palmilhámos passo a passo
as pedras soltas cantantes
dos trilhos da cotovia.

E o mundo girou
de mansinho
o trigo fulgiu
nos favos da seara
do tempo
e nós aprendemos
a amanhecer-nos
num só.

       Maria Santos

domingo, 15 de abril de 2012

A tarde




Sinto a tua fúria, mar calmo, na ironia do vento que passa, descompassado e áspero, testemunha do nada que os rochedos encobrem por debaixo da areia fina acariciada pelas ondas que rebentam em sussurros cansados. A tarde declina preguiçosa, pesada de quente e o silêncio ergue-se, escaldante, no horizonte, desta vez, fechado. Avisto uma onda de recuo enquanto se acendem as velas do Universo delineando as margens dos espaços desertos em ténues pinceladas de fresco…

Maria Santos, O Tempo Cansado